Não nua, e sim com uma nova roupa

NOSSA própria situação é bem parecida com a dos caramujos eruditos.

Grandes profetas e santos têm uma intuição com relação a Deus que é

positiva e concreta. Pois, só de tocar as vestes do seu ser, eles foram capazes

de vislumbrar que ele é a plenitude da vida, da energia e da alegria. E por

isso (e por nenhum outro motivo) eles têm de anunciar que ele transcende

aquelas limitações que chamamos de personalidade, paixão, mudança,

materialidade e coisas do gênero. A qualidade positiva que há nele, que

ultrapassa as limitações, é a única razão para tantas negativas.

Mas quando, titubeando, corremos atrás tentando construir uma religião

intelectual, e “iluminada”, o resultado é que pegamos essas negativas

(infinito, imaterial, impassivo, imutável etc.) e as usamos sem temperá-las

com a intuição positiva.

A cada passo do processo excluímos da nossa idéia de Deus algum atributo

humano. A única razão de se jogar fora atributos humanos é criar

espaço no qual colocaríamos algum atributo divino positivo. Na linguagem

do apóstolo Paulo, o propósito desse despir não é deixar nossa idéia de Deus

nua, mas fazer com que ela seja revestida. Infelizmente, não temos meios

para realizar este revestimento. Assim que removemos da nossa idéia de

Deus características elementares dos seres humanos, nós (meros investigadores

inteligentes e eruditos) não temos onde buscar aquele atributo da

divindade incrivelmente real e concreto que deve ser colocado no lugar do

atributo humano removido.

Assim, a cada passo no processo de refinamento, nossa idéia de Deus vai

sendo esvaziada, e imagens fatais começam a aparecer (um mar infinito,

silencioso, um céu límpido além das estrelas, uma abóbada branca e radiante),

levando-nos a um grande vazio, à adoração de uma entidade não existente.

– de Miracles [Milagres]

 

Tenham uma semana abencoada

Edgardo

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