Imagine
um caramujo erudito
DE ONDE vem essa predisposição das pessoas de achar que Deus
possa ser
tudo, menos o Deus concreto, vivo, desejoso e atuante da
teologia cristã?
Acho que a razão é a seguinte. Vamos imaginar um caramujo
totalmente
erudito, um verdadeiro guru entre os caramujos, que (em uma
visão
arrebatadora) consegue ver, ainda que de relance, o que é um
ser humano.
Na tentativa de transmitir suas visões aos seus discípulos,
os quais já têm
seus próprios conceitos sobre o assunto (ainda que menos
informados do
que ele), ele terá que usar muitas negações. Terá que lhes
dizer que nenhum
ser humano vive em uma concha; que não vive como um molusco,
grudado
em uma pedra; que não vive rodeado de água etc. E os
discípulos que
tiverem alguma visão, certamente, acabarão captando a idéia
do que
seja o ser humano.
O problema é que chegam então os caramujos intelectuais,
eruditos,
que escrevem histórias da filosofia e dão palestras sobre
religiões comparadas,
mas que nunca tiveram visão por si mesmos. Tudo o que eles
conseguem
extrair das palavras proféticas do caramujo são apenas os
aspectos
negativos, tudo isso sem o corretivo de um olhar positivo.
Eles constroem,
assim, uma imagem do homem como se fosse uma espécie de
gelatina amorfa
(ela não possui concha), que não existe em um lugar
específico (muito menos
grudada em alguma pedra), e que jamais se alimenta (não há
ondas
fazendo o alimento chegar até ela). E, fiéis à sua
reverência tradicional pelo
homem, eles concluem que ser uma gelatina subnutrida, que
vive num
vácuo sem dimensões, seja o modo supremo de existência.
Assim, rejeitam
como grotesca, materialista e supersticiosa toda doutrina
que atribua ao
homem uma forma, uma estrutura e um sistema orgânico
definidos.
– de Miracles [Milagres]
Abraços. Tenhan uma semana ricamente abencoada.
Edgardo

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